22 de mar de 2009

BREAKFAST _ CAFÉ DA MANHÃ

Descrição:
Instalação composta de uma mesa de café da manhã servida e posicionada rente à parede. A performance começa com a imagem de uma pessoa fazendo o seu desjejum cotidiano, que transcorre normalmente até que um movimento decisivo altera a realidade.
Duração:
10 a 20 min .
Através do tédio de observar o cotidiano, o expectador é surpreendido por esse movimento e, assim, transforma o seu olhar e ressignifica. Com a imagem criada, proponho uma reflexão sobre nossa fragilidade e sobre acontecimentos decisivos que transformam a vida. Considero essa performance a mais afiada no caminho de minha obra, pois é condensadora de sua trajetória.
Nos primeiros dez minutos o homem está vivendo a normalidade de se sentar à mesa, servir-se de café, pão com manteiga, suco, fruta. Assim, vagarosamente vai demonstrando um estranhamento diante daquilo que parece natural em seus movimentos. Através das desacelerações e acelerações, sutis, quase imperceptíveis, crio uma atenção, um descompasso, que pontua cada gesto e cada som criado pelo abrir de um plástico, o derramar de um líquido, o tilintar dos talheres. O espectador sente que algo pode ocorrer e, com o passar do tempo, duvida disso. A ansiedade está em todos os corpos. O homem, que sabe de seu objetivo e destino, tenta criar o tempo certo para agir. A platéia, passados os intermináveis primeiros minutos, já não acreditando mais na mudança da situação, tenta adivinhar o desfecho da imagem. Pensa que o homem vai comer tudo o que está servido (porém a mesa é farta, isso levaria mais de uma hora); ou que ele comeria até não agüentar mais. A platéia fica ansiosa com o descompassado ritmo e com as pequenas demonstrações esquizofrênicas do homem, que come tudo aos pedaços deixando restos, traços de mordidas. Tento, de tempos em tempos, imprimir a visualidade no olhar do espectador. Através de pequenas paralisações, crio quadros vivos, que parecem ser um momento do pensar do homem cuja solidão é dimensionada diariamente.
Aqui podemos fazer uma relação direta com o tema e a maneira de criar dos pintores holandeses do século XVII, por se tratar de um retrato da vida ordinária, levando ao olhar e à mente do outro momentos focalizados de cada vida. Durante o “vazio” dessas imagens corriqueiras, cada um vai trazendo de si maneiras próprias de lidar com o seu momento solitário — condição natural de existência. Apesar de todas as nossas relações de família, de amizade, de amor e de ódio, é assim que existimos dentro de um ser “solitário”. Temos que tomar nossas decisões tentando ser coerentes com nossos desejos e, ao mesmo tempo, ser certeiros em nossos movimentos, pois cada traço de vida determina um destino “exato”. O passado não retorna, mas o presente se transforma.
Assim, o homem decide e cria o momento de quebra da performance, o ápice. Como um movimento brusco e preciso, com uma velocidade enorme, ele se joga sobre tal realidade, destrói e recria. Vários estímulos são jogados sobre o espectador, que se choca: o som da quebra dos vidros e das porcelanas, o derramar dos líquidos, o corpo lançado como um torpedo. A normalidade é definitivamente cortada. O ser já não existe da mesma forma. Ao se jogar sobre a mesa, o corpo do homem se posiciona de cabeça para baixo, cabeça na mesa e pernas para o alto, encostadas na parede, invertendo a ordem e, assim, ele paralisa o tempo por alguns segundos. Diante aos olhares atentos e aos corações disparados pelo susto, os líquidos são a continuidade do movimento. Tudo recria posições na cena: cacos de vidro, cadeira, frutas, leite, manteiga, café, geléia, pedaços de pães, o ovo que há pouco era comido, o corpo. Os objetos remontam composições inimagináveis que, através dos líquidos, pictoricamente começam a ser percebidas pelo espectador, que agora, tem destruída toda a construção narrativa criada por suas expectativas, e, assim, possibilita novos pensamentos e prazeres estéticos.
O caos vai se recompondo e criando conexões, principalmente com os elementos da história da Arte, como o gênero da natureza-morta tanto visualmente quanto conceitualmente, pois o sentimento da fragilidade e do risco a que o corpo humano foi submetido vai levar ao pensamento noções-limites da vida, retomando mais uma vez, o conceito de Vanitas.
Depois de alguns segundos e não suportando o lugar de desequilíbrio, o homem vai se arrastando sobre a parede e, com as marcas dos sapatos, desenha uma linha de sua trajetória. Logo que chega ao solo abandona a cena deixando tudo como ficou nessa nova realidade.

Marco Paulo Rolla 2006 trecho da dissertação de mestrado do artista

Um comentário:

wilsomsorry disse...

absolutamente fantástico!!!
vi todos os teus trabalhos no site da Vermelho e fiquei fascinada!