23 de mar de 2009

CANIBAL

Descrição:
Instalação composta num ambiente de parede falsa, por um fogão de quatro bocas, uma cama acoplada ao fogão por detrás da parede, para sustentar um ou três corpos, e uma traquitana para fechar e abrir a porta do forno automaticamente, além de três performers nus e embebidos em azeite de oliva.
Duração:
3 h 30 min.
A visão do visitante é a de um fogão contra uma parede branca, com aspecto normal, comum. De vez em quando corpos escorregam para fora do forno, mas logo depois são engolidos novamente. O forno se torna uma boca, um buraco ou um monstro que engole e cospe corpos humanos. Primitivos desejos e visões. Pedaços de corpos nus, masculinos e femininos. O fogão explicita a fragilidade do corpo ou a vulnerabilidade da existência humana.
A máquina da indústria não digere os pedaços; ela regurgita os pedaços, criando uma visão absurda, libertando o inconsciente do espectador para uma reflexão sobre o tempo e a morte. A esquizofrenia do sistema instaurado, supostamente irreal, revela uma faceta verdadeiramente surreal do perverso jogo mercadológico da indústria. Acima dos conceitos éticos de uma sociedade, o mercado tenta sempre ditar o desejo no corpo, inerte, deglutido e usado para se vender e ser vendido, e, ao fim, representar o próprio monstro nos outdoors espalhados pelas metrópoles.
O fogão geralmente traz à memória o fazer do alimento, o aquecer e o preparar das energias vitais do humano. Mas ali o fogão é transfigurado e mescla o sentimento do prazer à memória do horror, como a boca de Bataille, ali invertida, e o que passa a ser aterrorizado é o homem. Os corpos mortos e oleosos misturam languidez e morbidez, a beleza na feiúra, o sedutor e o repulsivo.

Marco Paulo Rolla 2006 trecho extraido da dissertação de mestrado do artista.

Performance 2004: CANIBAL

22 de mar de 2009

BREAKFAST _ CAFÉ DA MANHÃ

Descrição:
Instalação composta de uma mesa de café da manhã servida e posicionada rente à parede. A performance começa com a imagem de uma pessoa fazendo o seu desjejum cotidiano, que transcorre normalmente até que um movimento decisivo altera a realidade.
Duração:
10 a 20 min .
Através do tédio de observar o cotidiano, o expectador é surpreendido por esse movimento e, assim, transforma o seu olhar e ressignifica. Com a imagem criada, proponho uma reflexão sobre nossa fragilidade e sobre acontecimentos decisivos que transformam a vida. Considero essa performance a mais afiada no caminho de minha obra, pois é condensadora de sua trajetória.
Nos primeiros dez minutos o homem está vivendo a normalidade de se sentar à mesa, servir-se de café, pão com manteiga, suco, fruta. Assim, vagarosamente vai demonstrando um estranhamento diante daquilo que parece natural em seus movimentos. Através das desacelerações e acelerações, sutis, quase imperceptíveis, crio uma atenção, um descompasso, que pontua cada gesto e cada som criado pelo abrir de um plástico, o derramar de um líquido, o tilintar dos talheres. O espectador sente que algo pode ocorrer e, com o passar do tempo, duvida disso. A ansiedade está em todos os corpos. O homem, que sabe de seu objetivo e destino, tenta criar o tempo certo para agir. A platéia, passados os intermináveis primeiros minutos, já não acreditando mais na mudança da situação, tenta adivinhar o desfecho da imagem. Pensa que o homem vai comer tudo o que está servido (porém a mesa é farta, isso levaria mais de uma hora); ou que ele comeria até não agüentar mais. A platéia fica ansiosa com o descompassado ritmo e com as pequenas demonstrações esquizofrênicas do homem, que come tudo aos pedaços deixando restos, traços de mordidas. Tento, de tempos em tempos, imprimir a visualidade no olhar do espectador. Através de pequenas paralisações, crio quadros vivos, que parecem ser um momento do pensar do homem cuja solidão é dimensionada diariamente.
Aqui podemos fazer uma relação direta com o tema e a maneira de criar dos pintores holandeses do século XVII, por se tratar de um retrato da vida ordinária, levando ao olhar e à mente do outro momentos focalizados de cada vida. Durante o “vazio” dessas imagens corriqueiras, cada um vai trazendo de si maneiras próprias de lidar com o seu momento solitário — condição natural de existência. Apesar de todas as nossas relações de família, de amizade, de amor e de ódio, é assim que existimos dentro de um ser “solitário”. Temos que tomar nossas decisões tentando ser coerentes com nossos desejos e, ao mesmo tempo, ser certeiros em nossos movimentos, pois cada traço de vida determina um destino “exato”. O passado não retorna, mas o presente se transforma.
Assim, o homem decide e cria o momento de quebra da performance, o ápice. Como um movimento brusco e preciso, com uma velocidade enorme, ele se joga sobre tal realidade, destrói e recria. Vários estímulos são jogados sobre o espectador, que se choca: o som da quebra dos vidros e das porcelanas, o derramar dos líquidos, o corpo lançado como um torpedo. A normalidade é definitivamente cortada. O ser já não existe da mesma forma. Ao se jogar sobre a mesa, o corpo do homem se posiciona de cabeça para baixo, cabeça na mesa e pernas para o alto, encostadas na parede, invertendo a ordem e, assim, ele paralisa o tempo por alguns segundos. Diante aos olhares atentos e aos corações disparados pelo susto, os líquidos são a continuidade do movimento. Tudo recria posições na cena: cacos de vidro, cadeira, frutas, leite, manteiga, café, geléia, pedaços de pães, o ovo que há pouco era comido, o corpo. Os objetos remontam composições inimagináveis que, através dos líquidos, pictoricamente começam a ser percebidas pelo espectador, que agora, tem destruída toda a construção narrativa criada por suas expectativas, e, assim, possibilita novos pensamentos e prazeres estéticos.
O caos vai se recompondo e criando conexões, principalmente com os elementos da história da Arte, como o gênero da natureza-morta tanto visualmente quanto conceitualmente, pois o sentimento da fragilidade e do risco a que o corpo humano foi submetido vai levar ao pensamento noções-limites da vida, retomando mais uma vez, o conceito de Vanitas.
Depois de alguns segundos e não suportando o lugar de desequilíbrio, o homem vai se arrastando sobre a parede e, com as marcas dos sapatos, desenha uma linha de sua trajetória. Logo que chega ao solo abandona a cena deixando tudo como ficou nessa nova realidade.

Marco Paulo Rolla 2006 trecho da dissertação de mestrado do artista

12 de mar de 2009

O VISÍVEL E O INVISÍVEL

Duração de 30 a 40 min

As pessoas chegam na sala; na mesa um grande volume de pano está vazia...silêncio, por alguns instantes, imóvel...5 minutos?
Um som é espalhado pelo espaço e permanece constante durante toda a performance.
Frutas e coisas são depositadas, posadas, esmagadas, deliciadas e pintadas, atiradas, respingadas e escorridas por gestos e ações. Frutas feridas trazem a memória do corpo.
No meio das frutas as roupas despem o corpo até a cueca...e ai a ação daquele corpo acaba e sua existência nua, na cabeça de cada pessoa presente se desvela ou não dependendo do ímpeto e da vontade de se ver...tento ficar na mesa até o ultimo conviva sair...ou outro acontecimento atravesse esta realidade.

Marco Paulo Rolla